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A história da agricultura orgânica brasileira - Capítulo 1

20/03/2014 | « Voltar

Manoel Baltasar Baptista da Costa*

Se na década de 1970 o País vivia a euforia do milagre econômico, contando a agricultura com crédito farto e subsidiado e demais estímulos à expansão da fronteira agrícola e da produção, foi também a década em que afloraram as contradições do processo da modernização agrícola. 

 
Afora os impasses socioeconômicos, surgiam as primeiras críticas sobre os impactos ambientais de tal opção, traduzidas na devastação florestal resultante da incorporação de novas áreas ao processo produtivo, na degradação dos recursos edáficos e hídricos com a mecanização intensiva do solo e uso indiscriminado de agroquímicos, na contaminação dos alimentos e intoxicação dos trabalhadores rurais por agrotóxicos.
 
Em fins da década de 1970 e início dos anos 1980 muitas pesquisas realizadas sobre os impactos da mecanização e dos agrotóxicos sobre o ambiente e o ser humano foram dadas a público.
 
Estudo realizado pelo Instituto Florestal do Estado de São Paulo mostrou que com o desmatamento desenfreado restavam no Estado apenas 8% de matas naturais, concentradas basicamente na Serra do Mar.
 
Estudos realizadas sobre a erosão no Paraná comprovavam que no Estado estava se perdendo 1 centímetro de solo ao ano nas áreas sob cultivo agrícola, cujo processo de formação levava em torno de 400 anos.
 
Estudos realizados pelo Instituto Adolfo Lutz, São Paulo, constataram elevada concentração de organoclorados no leite das mulheres gestantes, contaminadas através da ingestão de alimentos.
 
Análises realizadas pelo Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), de Campinas (SP), identificaram resíduos de agrotóxicos em laticínios, embutidos e outros produtos industrializados das principais marcas comercializadas no mercado.
 
Análises de hortaliças e frutas coletadas na Ceagesp pelo Instituto Biológico identificaram problemas de resíduos tóxicos elevados em número expressivo de amostras. 
 
Levantamentos realizados na Amazônia comprovaram o uso do agente laranja pela Eletronorte no controle de plantas invasoras sob suas linhas de transmissão.
 
Esses são alguns dos elementos que influenciaram o surgimento da agricultura alternativa no Brasil, em meados da década de 1970, como uma opção ao modelo da Revolução Verde, em grande expansão em função das políticas, recursos e ações públicas de apoio a tal modelo, notadamente nas esferas do crédito rural, da extensão, dos incentivos fiscais e da pesquisa agrícola. Até então, os críticos da Revolução Verde no País centravam suas análises nas questões econômicas, sociais e fundiárias, mas não tinham nenhuma restrição ao padrão agroquímico.
 
Nos países centrais, estavam em evidência os movimentos de contracultura e de contestação ao padrão tecnológico agrícola hegemônico, notadamente na Europa e nos Estados Unidos. Na França as iniciativas eram orientadas segundo os princípios da agricultura biológica; na Alemanha, era mais expressiva a corrente da agricultura biodinâmica; nos países de língua inglesa, Estados Unidos e Inglaterra à frente, predominava a corrente da agricultura orgânica; no Japão se identificava a escola da agricultura natural.
 
Tais movimentos de contestação ao padrão dominante tinham um viés eminentemente ecológico, não se atendo aos problemas sociais do agro, que no Primeiro Mundo não tinham a mesma expressão que no terceiro, face às políticas de subsídios ao setor.
 
O movimento de agricultura alternativa brasileiro 
 
Em 1968 era publicado no País o livro de Rachel Carson, “Primavera Silenciosa”, o primeiro trabalho que apontava os impasses com o uso de agrotóxicos nos Estados Unidos, com ênfase nos organoclorados, sobre os quais se confirmavam seus efeitos mutagênicos e teratogênicos sobre animais, e, por ironia, o problema foi identificado na águia americana, símbolo do brasão daquele país, que estava sendo seriamente afetada em sua reprodução dado o acúmulo de organoclorados no organismo.
 
Em 1972 era dado a público o Relatório do Clube de Roma, cuja principal conclusão era que no planeta Terra não havia matérias- primas e energia, para que toda a população adotasse os padrões de consumo então predominantes nos países desenvolvidos.
 
Em 1974 foi publicado pela Edusp trabalho que também corroborava as teses do Clube de Roma.
 
No Brasil um dos críticos mais contundentes do impacto ecológico da modernização da agricultura brasileira foi José Lutzenberger, engenheiro agrônomo executivo de empresa multinacional do ramo de agrotóxicos, que ao romper com o setor em meados da década de 1970 retornou ao País, engajou-se no movimento ambientalista, e passou a atuar na Associação Gaúcha de Proteção ao Meio Ambiente Natural (Agapan), possivelmente a primeira ONG ecológica do País. 
 
Lutzenberger passou a formular críticas ao modelo agrícola centradas no uso dos agrotóxicos, no desmatamento e na degradação do solo, em uma conjuntura de ditadura militar, quando as contestações políticas eram fortemente reprimidas, mas a crítica ambiental era permitida e tinha grande apelo e espaço na mídia. Suas ponderações levaram parte da categoria dos agrônomos a se questionar quanto aos conteúdos que pautavam sua formação básica profissional, centrada estritamente nos aspectos produtivos e financeiros da atividade, mas omissa no tratamento de suas dimensões sociais e principalmente ambientais.
 
No “Manifesto Ecológico Brasileiro”, publicado em 1976, Lutzenberger discute a crise de energia e de matérias-primas resultantes da sociedade industrial, em uma realidade de recursos planetários finitos, e refutava as premissas básicas da sociedade de consumo com sua ideologia de expansão e esbanjamento.
 
Segundo o autor, “na natureza tudo está relacionado entre si, biosfera, atmosfera, hidrosfera e litosfera encontram-se integradas num sistema homeostático, isto é, um sistema equilibrado e autorregulado: a ecosfera. As atividades antrópicas são parte inextrincável do funcionamento de ecosfera e o que se convencionou chamar de progresso não é outra coisa senão um incremento na rapina dos recursos naturais, sendo a sociedade moderna infinitamente mais destruidora do que algumas sociedades antigas, que desapareceram justamente porque fabricaram desertos”.
 
Uma das contribuições de Lutzenberger foi trazer à discussão na classe agronômica os problemas resultantes da mecanização, do cultivo de variedades genéticas selecionadas para a alta produtividade, mas de elevada exigência em agroquímicos e vulneráveis aos estresses ambientais, tecnologia que interessava principalmente às agroindústrias, mas incompatível com a ecologia tropical.
 
Outro mérito de Lutzenberger foi o de problematizar sobre a questão ecológica para a sociedade em geral e no espaço agronômico, cujo ideário, até então, era centrado no enfoque reducionista da rentabilidade física e financeira da agricultura.
 
As teses defendidas por Lutzenberger, afins à corrente ecológica ecocêntrica, incorporavam muitos dos conteúdos apregoados por Georgescu- Roegen.
 
Na segunda metade da década de 1970, eram organizados os primeiros eventos sobre agricultura alternativa, promovidos por entidades de classe da agronomia, iniciativas que viriam a ter desdobramentos futuros quanto à sensibilização, à capacitação e ao engajamento dos agrônomos no movimento ambientalista, e nos movimentos sociais do campo.
 
Assumia-se o termo agricultura alternativa como abrangente às distintas correntes de contestação ao modelo dominante: agricultura biológica, natural, permacultura, orgânica, biodinâmica, dentre outras.
 

* É professor e pesquisador de agroecologia da UFSCar
 
PRÓXIMO CAPÍTULO: DIA 21/8/2012
 
 
Fonte: Portal Orgânico